Tempo e Contratempo

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Mais conhecido como Beto Bigode, João Roberto ganha a vida tocando numa banda de rock pelos bares da capital. Seu apelido dispensa outras apresentações sobre o guitarrista. A banda, apesar de ter talento, não faz muito sucesso, mas tem contratos fixos com alguns estabelecimentos da cidade e uma agenda cheia.

E, como toda banda, possui sua legião de fãs enlouquecidos que não perdem show algum. Mulheres, em sua grande maioria. Dizem que músicos normalmente casam com uma de suas fãs. Fica mais fácil com as viagens constantes e uma vida com horários desregrados.

Com Beto era diferente. Aline, sua esposa, acha sua música um barulho insuportável. Na verdade, ela não gosta mesmo é de música. Qualquer música. Aline prefere aquele silêncio de quando está arrumando a cozinha e pode ouvir seus pensamentos misturados ao barulho dos talheres. E, para não dizer que não gosta, ela curte aquela banda ou cantor que aparece nos programas televisivos de domingo. Por pouco tempo.

Ninguém saberia explicar como duas pessoas com gostos tão distintos pudessem ficar tanto tempo junto e em tão perfeita harmonia. Já eram quase sete anos que não pareciam ter prazo de validade.

Como bom músico que é e o tanto que pretende melhorar, Beto Bigode tocava diariamente por várias horas. Todos os dias ele passava pela mesma situação. Enquanto ensaia em sua casa, escuta Aline pedir, aos berros, do andar de baixo, para diminuir o volume da guitarra reclamando da zoeira que o marido faz.

João Roberto, fingindo não ouvir, aumenta ainda mais o som abafando os gritos da esposa. E, se observar bem, dá para ver aquele riso astuto contido no canto da boca. No final, um suspiro de quem estava adorando tudo isso…

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Como de costume

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Para variar, Leandro perdeu a hora. Foi dormir tarde no dia anterior e sequer ouviu quando o despertador tocou às 6h00. Isso, de não acordar no horário, acontecia com certa frequência em sua vida. Todos os dias, Leandro acordava em um horário diferente e hoje foi às 7h10. Desesperado e assustado, levantou correndo. Lavou o rosto e penteou de qualquer jeito o cabelo, comeu um pedaço de biscoito água e sal com suco de laranja e saiu do apartamento no 14º andar do edifício Leblon. Aproveitou o tempo de espera do elevador para terminar de abotoar a camisa. Dizem que é sempre assim: o elevador pára em todos os andares quando se está com pressa. Chegou até a garagem, entrou no carro e notou que o alarme estava desligado. Havia esquecido os faróis acesos durante a noite inteira e, sem bateria, o veículo não ligou. Sem tempo para esperar um mecânico ou algo do tipo, Leandro foi até a portaria e chamou um taxi. Somente quando entrou percebeu que não havia sacado dinheiro ontem. Os 20 reais que tinha na carteira daria apenas para o taxista o levar até a estação de metrô mais perto. E foi o que fez. Com o trânsito já caótico pelo horário e com a pouca sorte que contava neste dia, chegou à estação Juscelino às 8h34. 4 minutos após a última saída. Com sorte, conseguiria pegar o próximo trem e chegaria apenas 3 horas atrasado no trabalho.

Sara acordou como previa às 7h15, antes mesmo do despertador tocar. Como fazia todos os dias, tomou um bom banho, arrumou-se e preparou o café com calma. Seu turno na empresa só começaria às 10h00, mas programava sua manhã para chegar sempre 15 minutos antes. Gostava de comer bem na parte da manhã e não podiam faltar frutas, queijos, pães, sucos. Separou todos os documentos que precisava levar para o trabalho e saiu tranquilamente, no horário de costume. Morava apenas a 10 minutos da estação, mas gostava de sair meia hora antes para evitar qualquer imprevisto. Exatamente às 8h15 o porteiro Dílson já esperava receber um “Bom dia!” de Sara, que saiu em direção à estação Juscelino. O relógio da plataforma de embarque marcava 8h25 quando Sara comprou seu bilhete e poderia pegar o próximo trem. Mas ela sempre preferia o que saía depois, às 8h45, pois, normalmente, era o mais vazio. E assim, como em todos os dias, Sara pegou o metrô no mesmo horário de sempre e com os mesmos passageiros de costume…

Exceto um.

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Comunicado

Já faz um mês que não publico nada.
Mas não abandonei esse blog. E não irei abandonar!

Aos meus leitores, deixo minhas sinceras desculpas.
Estou passando por um momento tenso e desprovido de inspiração.

Espero que não dure muito…

 

Aceito sugestões. Volto em breve!

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Submundo

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Um mundo
Imundo
Escuro
Inseguro
Uma luta
Sangrenta
Uma vida
Sobrevida

No lixo
O gato
O rato
Um bicho
Homem
Animal
Racial
Racional

Letal
Mortal
Crucial
Virtual
Desigual
Artificial
Vital
Natural
Sobrenatural
Real
Imaginado
Sentido
Torcido
Caído
Parado

Um mundo
Submundo, mundo
Mundo submundo

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Dilema Sentimental

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Aconteceu dele se apaixonar por duas pessoas. Nunca imaginou que isso fosse acontecer. Disseram a ele que o amor é único, que tem aquela coisa toda de alma-gêmea, de ser para sempre e tal… e ele acreditava piamente nisso. Seguia esse norte como um doutrina inquebrável desde os tempos em que deu seu primeiro beijo.

Até que simplesmente aconteceu. Assim. Sem mais nem menos. Sem avisar, nem nada. Um dia ele se viu dividido entre duas mulheres maravilhosas. Não foi por escolha, nem porque procurou. Mas agora ele sabia: é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo! Elas se completavam, o completavam e formavam um belo triângulo. Fechado. Totalmente fechado. Tudo completo.

O problema é que essa situação inesperada criava um conflito interno. Racionalmente, queria seguir os passos que aprendeu desde criança, o de que o coração só deve ter um dono. Mas a vontade que sentia mesmo era continuar com tudo aquilo. Deixar do jeito como estava. Sem tirar nem pôr. Estava feliz assim.

Um dia, finalmente tomou uma decisão. Foi até a primeira e contou tudo. Disse o quanto a amava, mas sem saber explicar como, passou a se sentir dividido e queria saber se ela aceitava. Queria muito ficar com ela, mas gostava das duas por igual. A resposta foi enfática. Ela disse o quanto o amava e que nunca aceitaria dividi-lo com outra pessoa. E, se ele não sabia escolher, que ficasse com a outra. “Desapareça! Some da minha vida! Nunca mais quero te ver!”, gritou enquanto fechava a porta na cara dele.

Muito mais confuso ainda, foi até a segunda. Dessa vez, não contou tudo, não queria correr o risco. Disse apenas o quanto a amava e queria ficar com ela pra sempre. Confessou que ela era a mulher da sua vida, sua cara-metade e queria passar a vida ao seu lado. Ela se assustou. Disse que não estava preparada pra isso e que só queria mesmo era aproveitar a vida. Não queria se prender a um homem e não queria homem algum preso a ela. Com medo, se afastou…

E ele ficou sozinho.

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Fim?

e não é “fim” porque acabou, porque raspou o prato, porque teve música tema, porque subiu os créditos, porque o vilão morreu, porque o mocinho casou, porque teve fade out, porque a tela ficou preta. “fim” é quando você acha que deve ser. é o copo de leite pela metade deixado na pia, é a prova de dez questões entregue com apenas cinco respondidas, é o telefone batido na cara do outro no meio da conversa, é trocar o cd depois que sua música preferida tocou, é mudar o canal depois de ver que seu time perdeu, é assistir só os três filmes da trilogia com quatro.”fim” é quando você diz quando e onde ele deve ser ponto final.

 

FIM.

 

Daqui: http://vforvinheta.posterous.com/fim

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(Des)conto de Fadas

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Era uma vez… um reino muito bonito! E distante.
Vivia ali uma jovem que adorava ir até o bosque e passear entre as árvores observando cada ser, escutar os pássaros cantando e observar o colorido das borboletas. Fazia isso todos os dias. E todas as vezes que ia até lá, sentava nas margens do lago para admirar seu rosto refletido nas águas. E com razão, pois ela era realmente bela.

Foi em um desses passeios que, sentada perto do lago, a mocinha ouviu uma voz.
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O Plano

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STARSeus cabelos começaram a ficar brancos quando ainda era muito novo. Aos 35, já vestia uma coroa branca como neve. Por sorte (ou azar) não ficou careca como seu pai, mas raspava sempre, não deixando um fio branco sequer. Não gostava.

Agora, com mais de 60 anos e aposentado passava os dias em casa. Seus amigos, já eram poucos. Era chato. Acostumado a trabalhar, não conseguia ver as horas do resto da sua vida passando. O ócio entedia. Entedia tanto que a vida perde a razão de existir. Começou a brigar com a mulher com freqüência e também com seus filhos. Ficou chato.

Em fevereiro daquele ano, iniciou seu plano. Deixou a barba e o cabelo crescer e se trancou em casa. Passou meses sem aparecer em público. Deixou de ir a eventos de família e a qualquer outro com mais pessoas. Sua esposa achou tudo muito estranho, mas imaginou que era algum distúrbio decorrente da idade e logo iria passar. Como já não conversavam direito, não questionou. Ele não contou para ninguém. Guardou segredo.

E foi assim. Por meses e meses, isolado dentro de casa. Durante todo esse tempo, só saiu uma única vez. Escondido e disfarçado. Ninguém sabe onde. Foi apenas um dia, saiu e voltou para seu casulo. E lá ficou.

Finalmente saiu. Nove meses depois, em novembro, quando começou o trabalho em um shopping. Odiava o apelido, mas, nessa época do ano, amou ouvir as crianças lhe chamando de Papai Noel.

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O Teste

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Assim que a conheceu, cumprimentou e deu um forte abraço, daqueles difíceis de largar, por um bom tempo.
Ela achou estranho demais, mas preferiu não comentar.

Ele queria ter certeza.
Admitia um cabelo comprado, mas nunca peitos comprados.

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