Esperando

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Estava tudo pronto.

No apartamento 302 do edifício Amélia, o rádio portátil tocava um CD do Barry White. Sobre um castiçal de ferro fundido em forma de galhos, havia duas velas acesas que iluminava, à meia-luz, a sala de dois ambientes. Acesa mesmo estava apenas a luminária da varanda por trás das cortinas em tons pastéis. Em lados opostos, dois pratos transparentes em cima da mesa. Cada um com seus respectivos talheres bem posicionados.

Uma pequena fresta na janela do quarto permitia entrar uma brisa que amenizava o clima quente da capital. No ar, pairava o cheiro de manjericão utilizado para temperar o molho que se confundia com o do incenso de lojas de conveniência que ainda queimava lentamente no aparador. O prato principal seria um talharim al dente que ele mesmo inventou. Algumas rosas vermelhas pendiam de dentro de uma jarra ao lado do castiçal. Havia também, pétalas espalhadas por ali, percorrendo todo o corredor que dava até o quarto.

Lençóis de mil fios de cor azul turquesa estavam estirados sobre a cama com algumas almofadas de tecido egípcio. Na parede, vários bilhetinhos escritos com caneta especial que só seria possível ler quando as velas do quarto fossem acesas.

Estava tudo pronto. Cada detalhe, cada mínimo detalhe, mas ela não iria aparecer. Como nunca apareceu. Era a oitava vez que ele arrumava tudo, com todo cuidado possível e ela não iria aparecer. E ele sabia disso. Mas, mesmo assim, fazia.

Há oito anos, ele fez tudo igual, desse mesmo jeito. Seria a primeira vez dela, mas não foi. Um caminhão baú carregado de móveis perdeu o freio na ladeira da Presidente Neves. No caminho, parado no semáforo à frente, estava o carro dela. A caminho, estava ela.

Sabia que isso nunca mais a traria de volta. Alguns diziam que ele gostava de viver muito no passado, de ficar preso nas memórias. Sugeriram que ele procurasse alguma ajuda, mas foi com esse ato que encontrou a melhor forma de mantê-la viva. Ele saberia que ela realmente nunca mais iria aparecer, mas era como se, deixando tudo pronto exatamente da mesma forma, ele pudesse todos os anos permitir que o futuro continuasse incerto, um novo ciclo. Na sua memória, aquele instante ainda continuaria vivo e indefinido.

Aquele exato instante, em que ele a esperava e ela se foi. Para sempre.

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Esperar é ter esperança.

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Sobre henrique

Quando nada existia... quando tudo era impossível... Em meio ao imenso vácuo deixado pelo mar de coisas... Quando já absorto de fartas esperanças... ... eis me aqui!
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Uma resposta para Esperando

  1. Bella disse:

    nossa, que lindo! bem triste, mas lindo!

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