O Último Sinal

Era exatamente 19h47min quando José Vicentino de Souza Santos viu, pela última vez, aquele semáforo vermelho se abrir.

Fazia a mesma coisa diariamente há mais de 50 anos desde que deixou o sertão e se mudou para a capital. Mas não se orgulhava nem um pouco disso. E não se sentia nem um pouco confortável.

Era pobre e analfabeto. Trabalhava no campo com seus oito irmãos até o dia que a terra secou. Vendo todo aquele sofrimento que passavam e decidido a mudar de vida, fugiu de casa numa madrugada e pegou carona até a cidade.

Sozinho, não foi nada fácil sobreviver à vida nova na cidade grande. No início, ficou perdido, passou fome, dormiu na rua. Mas, com os trocados que recebia, conseguiu formar seus quatro filhos em faculdades particulares. Orgulhava-se de ter ensinado eles a seguir outro caminho. Vivia uma vida tranqüila com comida na mesa em uma casinha que construiu no subúrbio.

Finalmente, depois de tantos anos, conseguiu o suficiente para se aposentar. A chuva contribuiu com o aumento de carros na rua e, conseqüentemente, com um faturamento maior. Não precisaria mais se submeter a essa humilhação que feria seu orgulho todos os dias.

Quando o último carro atravessou o cruzamento da Teixeira Mendes com a Avenida Jobim deixando a via deserta, seu Zé dirigiu-se até os arbustos da Praça General Tavares onde escondia seus pertences.

Longe da iluminação, desceu da cadeira de rodas e trocou de roupa. Pendurou a bolsa no ombro, dobrou a cadeira para facilitar o transporte e seguiu até o quarteirão fechado da Campos Silva. Ali, guardou a cadeira de rodas que nunca mais iria usar no porta-malas de um Siena prata 2008, entrou no carro e usou o celular para falar com a esposa.

Com um longo suspiro de alívio, colocou o veículo em marcha e nunca mais voltou.

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Sobre henrique

Quando nada existia... quando tudo era impossível... Em meio ao imenso vácuo deixado pelo mar de coisas... Quando já absorto de fartas esperanças... ... eis me aqui!
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