Entre Janelas

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Ele sempre reclamava. Apesar do horário de pico, não pegava trânsito quando voltava do trabalho. Saía da empresa lá da região sul às dezoito horas e exatos trinta e dois minutos depois já estava do outro lado da cidade, em casa. Só o horário do fim de expediente que não era tão exato. Mas, era sempre um percurso tranquilo, sem congestionamentos e sem muitos semáforos. Apenas ali, quase chegando a seu bairro, bem naquele cruzamento da Monteiro Lobato com a Avenida Brasil, que a coisa complicava. Era preciso muito tempo para atravessar. E ele sempre reclamava.

sinal

Por ser tratar de uma avenida, o sinal ficava somente vinte e três segundos no verde e poucos carros conseguiam passar. Como única entrada para o bairro, a fila era grande. Meio em curva. Raramente conseguia no primeiro sinal verde. Mas, às vezes, havia motoristas meio lentos em sua frente e acabava tendo que esperar a terceira chance.

Hoje tudo estava acontecendo como nos piores dias. Para tornar a situação mais crítica, era uma das tradicionais movimentadas sextas-feiras. No segundo verde, o motorista distraído do Fusca à sua frente demorou a andar. Buzinou, acelerou… Não deu.

Nem ele e nem o da frente passaram. Ficou parado na segunda posição da fila da esquerda. Mais uma vez, preparava-se para sua lamentação e reclamação intrapessoal, quando um carro parou na fila ao lado. Virou-se e seus olhos cruzaram com os da motorista. Uma morena de cabelos ondulados em um CrossFox vermelho. Pode notar o singelo sorriso disfarçado no rosto dela. Não tinha dúvidas de que era o mais belo que tinha visto até então.

Abaixou o volume alto do David Guetta que tocava na entrada auxiliar do som de seu Palio preto. Conseguiu ouvir o MPB desconhecido pela janela aberta. Gritou, disse que gostava. Perguntou o que era.

Não conseguiu ouvir. Várias buzinadas atrás o trouxeram para a realidade de um sinal de trânsito aberto. Percebeu que não era o único ansioso que reclamava. Mas nem ligou. Nada mais importava além do que via segurando o volante do outro veículo.

Sinalizou. Atravessou a Brasil com a luz âmbar mudando para a vermelha e encostou no próximo quarteirão de pouco movimento. Ela parou logo atrás. Trocaram nomes, telefones e combinaram de encontrar.

Nunca mais reclamou. Todos os dias ele ainda passa por lá. No banco do passageiro de um carro vermelho.

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Sobre henrique

Quando nada existia... quando tudo era impossível... Em meio ao imenso vácuo deixado pelo mar de coisas... Quando já absorto de fartas esperanças... ... eis me aqui!
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