Antes de Partir

.

Era um domingo de primavera como qualquer outro. Tímidos raios de sol penetravam o quarto pelas pequenas frestas da veneziana fechada. Mariam abriu os olhos.

Como fazia todas as manhãs nos últimos dois meses, pousou as mãos sobre o ventre. Passou horas nesta posição fitando as formas geométricas surreais da luz no teto. Pássaros cantavam saudando um dia que acabava de nascer. Era uma menina, tinha certeza. Os médicos disseram que era ainda muito cedo para afirmar, mas ela sabia.

Podia imaginar aqueles olhinhos cor de mel observando pelo espelho enquanto penteava o cabelo ondulado. O primeiro banho. O primeiro dentinho e a primeira palavra. Iria lhe ensinar tudo que aprendeu nessa vida. Seria sua confidente, amiga, companheira. Seria sua mãe! Dariam os primeiros passinhos juntas e fariam compras no shopping. As mamadeiras, as bonecas, as amigas da escola… Já tinha até o nome: Laila!

Saber que era um sonho se realizando dava razão à sua vida. Mariam seria mãe e, ser mãe, é o sentido de qualquer existência feminina. Era uma espera ansiosa em contagem regressiva. Cada dia que passava era um dia a menos para conhecer Laila.

Por fim, levantou-se e foi ao banheiro. Apenas após seus pés descalços tocarem as frias cerâmicas brancas que Mariam realmente despertou. Demorou um tempo até conseguir regular a temperatura da água como queria. O dia deve começar sempre assim, dizia, de alma lavada! Novamente fechou os olhos enquanto era massageada pela ducha quente.

Mariam sentiu que algo não estava certo. Com um pressentimento instantâneo, abriu os olhos e pôde ver a tonalidade avermelhada que a espuma escorrendo pelo seu corpo adquiria antes de chegar ao chão. Por um instante não sabia se deveria acreditar no que estava vendo.

Antes mesmo que pudesse se tornar realidade, Laila se foi… Como queria abraçá-la! Como queria dar seu último adeus! Como queria olhar nos olhos! Era um sentimento frustrante não poder sentir aquele ser em seus braços. Era como se tudo não tivesse passado de simplesmente um sonho.

Não! Para Mariam, Laila era real. E Laila saberia que se sentiu amada desde quando ameaçou existir. Em toda sua pré-existência, Laila teve todo o amor que poderia ganhar. Mariam a amou todos os dias daqueles últimos meses. E isso, de certa forma, deixava Mariam aliviada.

Naquele momento, Mariam teve certeza: algumas coisas não se despedem antes de partir. Não pedem licença antes de atingir um coração. Assim, Mariam viu todos os seus planos e sonhos descendo pelo ralo. Ali mesmo, Mariam fez o funeral simbólico de Laila. E seguiu tocando a vida. Porque, no fundo, sabia que era tudo o que podia fazer.

.

Anúncios

Sobre henrique

Quando nada existia... quando tudo era impossível... Em meio ao imenso vácuo deixado pelo mar de coisas... Quando já absorto de fartas esperanças... ... eis me aqui!
Esse post foi publicado em Crônicas, Textos e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Antes de Partir

  1. Danilo disse:

    Não fiquei surpreso com o texto. Conheço Henrique desde que nasceu para esta vida e desde quando nasceu para a arte de escrever. Espero ter novas oportunidades de deleite proporcionadas pela sua escrita firme e segura.
    Danilo

    • henriquer disse:

      Padrinho! Que surpresa você por aqui!
      Fico honrado quando o elogio que recebo vem de um dos grandes! Grandes em todos os sentidos, claro! =)
      Abraços,
      Henrique

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s